O risco do alto consumo de bebidas adoçadas

Dra. Suzana Vieira

  • Graduada pela Faculdade de Medicina da UFPE;
  • Endocrinologista e Doutora em Ciências pela USP;
  • Departamento de Saúde Pública da SBD na gestão 2016-2017;
  • Associada da SBD e colaboradora do Movimento Slow Medicine.

Nos últimos dias, publicações relacionadas ao excesso de açúcar na dieta vêm chamando a atenção. A primeira notícia que vale a pena comentar que foi objeto de várias publicações em diversos canais de comunicação noticiaram um estudo sobre o risco de bebidas adoçadas e câncer. O artigo publicado na revista British Journal of Medicine correlacionou o aumento do consumo de bebidas adoçadas, seja com adição de açúcar ou mesmo os sucos 100% integrais, foram associados ao aumentou em 18% o risco de câncer no geral, em especial câncer de mama, que aumentou em 22%. Os dados foram extraídos de uma cerca de 100 mil adultos que foram seguidos de um estudo de coorte na população francesa. Esse estudo não tem suficiente evidência para demonstrar causalidade, mas levanta uma hipótese a ser confirmada por outros estudos.

A quantidade crescente de alimentos industrializados e ultraprocessados com grande quantidade de gordura e açúcar e pobre em fibras marcam a transição nutricional observada nas últimas décadas. Paralelamente, observamos também uma transição epidemiológica, que muda o padrão de prevalência de doenças relacionadas com desnutrição para um padrão de predominância de doenças crônico-degenerativas associadas com o estilo de vida urbano-industrial. Dessa forma, doença cardiovascular e câncer se tornaram as principais causas de morte em quase todo o mundo.

Esse aumento do percentual de para os ultraprocessados em detrimento dos minimamente processados tem sido observado no Brasil. Um estudo feito por pesquisadores de Saúde Pública observaram que os alimentos ultraprocessados representam cerca de 30% do total da ingestão calórica. As pessoas com maior ingestão de alimentos ultraprocessados têm índice de massa corporal significativamente maior e quase duas vezes o risco de ser obeso e aproximadamente 25% de chance de ter sobrepeso quando comparados aos indivíduos que tinham o menor percentual de consumo. Concluem que os achados sugerem um papel dos alimentos ultraprocessados na epidemia de obesidade no Brasil.

Considerando o aumento da obesidade e seu impacto nos casos de diabetes e potencial risco para o desenvolvimento para câncer, uma reportagem da BBC Brasil questionou se seria estaria na hora de tratarmos o açúcar como lidamos com o tabaco em relação a políticas públicas.

Se considerarmos que o açúcar pode ser viciante e os danos do consumo em excesso muitas vezes não são valorizados, a resposta seria sim.

Há evidências científicas que o açúcar tem em comum com outras substâncias, como tabaco e álcool, a possibilidade de desenvolvimento de quadros que sugerem dependência química. A entidade de “vício em comida” ainda não é totalmente reconhecida, mas há publicações na área, inclusive com as escalas tão usadas na psiquiatria. Recentes revoluções (agrícola, industrial e demográfica) estão associadas à crescente epidemia de obesidade. Nesse mesmo período, podemos dizer que pouca ou nenhuma mudança ocorreu nos nossos genes.

É necessário estratégias amplas que abranjam toda população para que haja redução do de bebidas adoçadas e melhor escolha dos alimentos pelos consumidores. O Brasil é o quarto maior consumidor de açúcar no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Uma das primeiras estratégias é a rotulagem de alimentos. A Sociedade Brasileira de Diabetes juntamente com outras entidades médicas defende a rotulagem frontal dos produtos industrializados de forma que seja facilmente identificável pela os alimentos que contenham grandes quantidade de sal, açúcar e gordura saturada. Esse tipo de medida fez o consumo desses alimentos caírem no Chile.

O passo seguinte passaria pelo aumento da tributação de bebidas adoçadas e alimentos ultraprocessados. Países como o México, Peru e Chile seguiram a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e aumentaram a tributação de refrigerantes. Infelizmente, o Brasil demonstrou estar na contramão dessa estratégia ao aumentar o benefício fiscal para a produção de refrigerantes.

Medidas semelhantes de restrição de propaganda, alerta nas embalagens e aumento da tributação foram tomadas por diversos em relação ao tabagismo e observou-se queda do consumo de cigarros. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o consumo de cigarros diminuiu em 65% entre 1980 e 2010. Num passado muito distante, os reais danos do cigarro não eram conhecidos ou eram negligenciados por grande parte da população. Ao contrário, tínhamos os mais diversos tipos de propagandas estimulando o consumo. Hoje essas propagandas antigas (como as que vimos abaixo) nos parecem absurdas.

O assunto é ainda bastante controverso. Ainda nos faltam resultados que comprovem o benefício das políticas públicas para redução do consumo de açúcar e alimentos ultraprocessados para o combate da obesidade e suas consequências. É provável que ainda não houve tempo hábil para que seja observado tal resultado. Por enquanto, temos dados que nos sugerem fortemente o alto consumo de açúcar e alimentos ultraprocessados que contribuem para o aumento da incidência de obesidade e suas comorbidades, sejam tais alimentos viciantes ou não. A resolução do problema também não é simples, já envolve a responsabilidade individual do consumo consciente de cada cidadão e a contrapartida do Estado em facilitar o consumo dos alimentos saudáveis.

Dra. Suzana Vieira é Endocrinologista e Doutora em Ciências pela USP. Fez parte do Departamento de Saúde Pública da SBD na gestão 2016-2017. Atualmente, é associada da SBD, colaboradora do Movimento Slow Medicine (www.slowmedicine.com.br) e escreve sobre diabetes e outros assuntos ligados à endocrinologia e metabologia em seu blog (www.drasuzanavieira.med.br).

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