Diabetes e colesterol: dos fakes aos fatos

Dra. Andressa Heimbecher Soares

  • Endocrinologista
  • Especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.
  • Médica colaboradora do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
  • Membro Titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Membro Ativo da Endocrine Society.

Hoje em dia as informações estão na palma da mão. No mundo da internet e das mídias sociais é muito comum que as informações circulem sem qualquer tipo de regulação quanto à sua veracidade. As chamadas “fake news” ou ainda as notícias geradas sem embasamento científico geram no público leigo algumas crenças que podem sim ser perigosas quando o assunto é saúde. E um dos temas que mais sofre com isso certamente é o colesterol.

Desde que “colesterol alto faz bem”, que “alimentos ricos em gorduras saturadas podem ser ingeridos à vontade” ou que “medicamentos para tratamento de colesterol devam ser abolidos” ... estas e muitas outras afirmações acabam deixando nós, médicos dedicados ao estudo das evidências científicas, de cabelos em pé.

Uma das áreas em que mais estudamos os efeitos do colesterol é no Diabetes. Isso acontece porque o Diabetes tem como sua maior causa de morte e complicações as doenças cardíacas ou cerebrovasculares devido à formação de placas de gordura nas artérias. O depósito progressivo de gordura na parede das artérias gera uma inflamação local que pode obstruir o trajeto do sangue por dentro delas. Se for uma artéria coronária – que leva sangue ao coração, a obstrução causa infarto. Se for uma carótida – que leva sangue ao cérebro, a obstrução causa um acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI). Se for em uma artéria da perna, até amputação em certos casos.

Diante de anos de estudo, o que se sabe é que sim, quanto mais alto o nível de colesterol LDL – que é o colesterol de baixa densidade, maiores são os riscos de formação de placas de gordura, que chamamos de ateromas. E que de forma oposta, quando menores os níveis de LDL, menores os riscos. Isso é comprovado através de estudos que observaram pacientes durante anos e que correlacionaram os níveis de colesterol com o número de infartos, derrames ou eventos de isquemia.

Além disso vale entender que sim, a dieta tem papel importante no controle dos níveis de colesterol, mesmo que a origem dele seja familiar (genética). A recomendação da Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção de aterosclerose é reduzir dos níveis de gordura saturada das dietas, priorizando as gorduras mono e poli-insaturadas (de origem vegetal). A simples troca de carboidratos por gorduras saturadas aumenta o risco de eventos cardiovasculares maiores (infartos e AVCIs). Além disso, deve-se abolir o consumo de gorduras trans.

E sobre os medicamentos? O tratamento com as estatinas (sinvastatina, rosuvastatina, atorvastatina, por exemplo) é a primeira linha quando falamos em prevenção de eventos cardiovasculares. O correto é utilizar calculadoras de risco (exemplo: http://www.cvriskcalculator.com) para tomarmos decisões sobre qual paciente deverá receber o tratamento e qual força desse tratamento. Para pacientes diabéticos, os últimos consensos têm indicado o uso das estatinas e a associação com outros medicamentos (ezetimiba, inibidores de PCSK9...) quando for essencial reduzir mais ainda os níveis de LDL colesterol.

A ciência por traz do estudo do colesterol é extremamente séria e ponderada. Quando se adiciona que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo, com 31% das mortes globais, não há mais lugar para “fake news” e interpretações sem embasamento científico. É lugar de pesquisa, ética e tratamentos corretos. Pense nisso!

Quer saber mais?

https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5253:doencas-cardiovasculares&Itemid=1096

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