Um Sopro de Vida: Vencendo a Inevitabilidade da Morte

Dr. Augusto Pimazoni-Netto - CREMESP 11.970

  • Doutor em Ciências (Endocrinologia Clínica) pela Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
  • Coordenador do Grupo de Educação e Controle do Diabetes do Hospital do Rim – Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP
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O fato verídico aqui relatado mostra que intervenções terapêuticas eficazes podem, eventualmente, contrariar a lógica médica.

Estou entre aqueles que acreditam que a medicina deva ser utilizada para proporcionar, não apenas uma vida digna mas, também, uma morte com dignidade. O direito à vida deve se confundir com o dever de viver, sempre que ainda haja uma esperança de vida digna. Mas, o direito à dignidade na morte é inalienável e deve ser respeitado pelos que praticam a medicina como ciência e sacerdócio.

O ponto crucial desta questão reside, justamente, na capacidade de se definir, de forma precisa e inquestionável, a hora exata em que os esforços de sobrevivência devam dar lugar à resignação, frente a uma morte inevitável. Seguramente, este é o dilema mais crucial na vida profissional daqueles que compartilham esta filosofia de resignação perante o desfecho inevitável.

Certas vivências reais em nossa vida profissional parecem ter a finalidade de questionar nossos mais arraigados conceitos, fazendo com que nos detenhamos para meditar e repensar nosso posicionamento, por mais tranqüilas que sejam as nossas convicções. Muitas vezes, nossos conceitos sobrevivem intactos, muito embora não tenhamos uma explicação racional para os fatos ocorridos.

Uma das mais dramáticas experiências nesse sentido eu vivenciei, logo no início de minha carreira, no interior de São Paulo, para onde me dirigi após cinco anos de residência em Pediatria.

No início dos anos 70, quando o fato ocorreu, eu era o único neonatologista da região, com uma vasta experiência em reanimação de recém-nascidos e em assistência neonatal. De meu instrumental de uso rotineiro faziam parte o laringoscópio e um respirador mecânico portátil, visto que eram frequentes as ocasiões em que uma reanimação, com entubação traqueal, se fazia necessária.

Nos anos 70, a neonatologia ainda era uma ciência pouco difundida e somente alguns colegas davam uma importância real à assistência ao recém-nascido, na sala de parto. Prevalecia o conceito de só chamar o pediatra se a situação complicasse, o que, evidentemente, contribuía de forma significativa para a mortalidade neonatal.

Exatamente por ser encarada como uma especialidade elitista, a grande maioria de minha clientela era composta de clientes particulares, de um bom nível econômico e cultural. Muito raramente eu era acionado pelos colegas para atender a pacientes previdenciários ou indigentes, muito embora jamais me recusasse a atendê-los. E foi com um pequeno paciente, nascido numa Santa Casa, como indigente, que este fato ocorreu.

Era uma fria manhã de inverno, quando meu telefone tocou. Era da Maternidade da Santa Casa, onde um colega havia feito o parto de uma criança que nascera em péssimas condições, apresentando intensa dificuldade respiratória e entrando em repetidas crises de apnéia, sem que o anestesista conseguisse controlar a situação. O coração ainda batia, mas o ritmo era irregular. A criança evoluía para o óbito mas, de qualquer forma, resolveram me chamar.

Trinta minutos se passaram até que eu conseguisse chegar ao hospital. Ao entrar na sala de parto, fui informado de que a criança já tinha falecido há vinte minutos e que de nada mais adiantariam meus esforços no sentido de reanimá-la.

Ao examinar a criança, confirmei o óbito: o coração não batia mais, a criança estava em apnéia completa e toda cianótica. Não havia dúvidas quanto à morte clínica do bebê. De fato, convenci-me de que qualquer tentativa de reanimação seria totalmente inútil.

Nesse ponto, meu lado racional e profissional se manifestou. Afinal de contas, para se manter a habilidade em entubar recém-nascidos com chances reais de sobrevida, há necessidade de um treinamento contínuo e já fazia tempo que eu não tinha a oportunidade de praticar esse procedimento.

Face à constatação inequívoca da morte clínica, resolvi entubar o bebê com o único propósito de exercitar minhas habilidades, uma vez que não restava nenhuma esperança de vida. Seria a única e grande contribuição que aquele pequenino ser iria dar à medicina em sua curta existência.

De fato, consegui entubar a criança sem maiores dificuldades e, logo em seguida, conectei o tubo endotraqueal ao respirador portátil manual para treinar a manobra de ventilação. Em menos de um minuto, entretanto, o que era para ser um simples exercício de habilidades, acabou se transformando num dos fatos mais marcantes e extraordinários de toda minha vida profissional.

Contrariando todas as expectativas médico-científicas, após quase 30 minutos de morte clínica, eis que o bebê começou a movimentar uma das mãos, depois a outra, os movimentos se estenderam aos braços e pernas, as tentativas de movimentos respiratórios espontâneos tornaram-se mais freqüentes e mais intensas, enfim, o bebê mostrava sinais inequívocos de que voltaria a viver.

A partir daí, iniciou-se uma verdadeira operação de guerra no sentido de tentar, desesperadamente, reverter a morte clínica constatada e de tentar revitalizar aquele corpinho inerte que dava alguns sinais de vida, bastante promissores.

O que era um simples treinamento passou a ser uma luta desesperada pela vida. Ninguém na sala de partos podia acreditar mas, após alguns minutos de manobras efetivas de reanimação, aquela criança voltou à vida com toda a força e todo o esplendor de quem jamais houvera visitado os domínios da morte.

Completamente reanimada, ficou em observação na UTI neonatal por cinco dias, após o que recebeu alta, aparentemente sem seqüelas detectáveis decorrentes da dramática experiência.

Nunca mais vi essa criança. Jamais poderei ter certeza de que não houve seqüelas neurológicas, apesar da normalidade neurológica constatada nas avaliações iniciais que antecederam sua alta do berçário. De minha parte, continuei fiel a meus conceitos, sempre colocando a ciência acima de qualquer explicação de caráter sobrenatural e de especulações religiosas, embora jamais conseguisse explicar nem o fato, nem um eventual significado filosófico que ele pudesse ter.

Minha única tristeza em relação a esse episódio é que, de alguma forma, sinto que esse pequeno indigente não tenha conseguido vencer sua batalha final contra a morte pois, tendo recebido as graças do conhecimento médico, talvez não tenha sobrevivido à fome e à miséria que dizimam a infância brasileira por culpa da inépcia e do descaso de nossos governantes.

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