O BULLYING CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM DIABETES NAS ESCOLAS

Dr. Edson da Silva

  • Doutor em Biologia Celular e Estrutural Universidade Federal de Viçosa (UFV)
  • Docente da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)
  • Líder do Grupo de Estudo do Diabetes da UFVJM
  • Especialista em Educação em Diabetes (UNIP e ADJ-IDF-SBD)

Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa...

O bullying é um problema mundial, tipicamente provocado por um ou mais jovens e pode ocorrer em diversos setores da atividade humana, sobretudo no trabalho e no ambiente escolar. As agressões no bullying podem ocorrer de forma verbal ou não verbal e geralmente são intencionais, repetidas e sem motivação aparente, mas capazes de causar dor, angústia, exclusão, humilhação e discriminação, entre outros agravos à saúde física e mental. As relações interpessoais na presença do bullying envolvem desequilíbrio de poder social real ou percebido.

Ações de bullying manifestam-se com exclusiva finalidade de ferir ou deixar a vítima desconfortável, por isso, ele deve ser identificado pela comunidade escolar como violência e deve ser trabalhado na busca por ambientes mais saudáveis para seus alunos.

Embora o bullying seja mais comum nas escolas, pode ocorrer em qualquer lugar e manifestar-se de forma física, verbal, relacional ou cibernética, neste caso denominado de cyberbullying. Nos últimos anos, o cyberbullying recebeu maior atenção, à medida que os dispositivos eletrônicos tornaram-se mais comuns. Independente do tipo, o bullying é considerado potente fator de risco para o desenvolvimento de comportamentos antissociais individuais geradores de violência na sociedade.

Atualmente, o bullying na infância é comum e pode causar sérios efeitos adversos à saúde física e mental, tanto para a vítima quanto para o agressor, incluindo sofrimento emocional, depressão, ansiedade, isolamento social, baixa autoestima, ausências ou recusa em ir à escola. Nos adolescentes, os fatores de risco para se tornar uma vítima de bullying incluem ser lésbica, gay, bissexual ou transgênero; ter uma deficiência ou condição que necessite assistência médica, como asma, doenças da pele ou diabetes. Neste sentido, mundialmente existem instituições e profissionais envolvidos na elaboração de ações, projetos e pesquisas para combater o bullying contra o aluno com diabetes nas escolas.

As crianças com diabetes possuem, por lei, o direito de participar plenamente de todas as experiências da infância na escola. Não devem sofrer discriminação nem se sentir diferentes devido ao fato de ter diabetes. Para isso, a comunicação e a cooperação da escola são essenciais para o bom gerenciamento do diabetes, maior segurança e melhores oportunidades acadêmicas para este aluno. Além disso, devemos considerar que as mudanças cognitivas, emocionais e de desenvolvimento são dinâmicas e rápidas durante a infância, a adolescência e o início da idade adulta. Devemos entender que o controle do diabetes durante essa fase de vida sobrecarrega os jovens e suas famílias, exigindo avaliação contínua do estado psicossocial e da angústia desencadeada pelo diabetes.

A complexidade que abrange o manejo da doença requer trabalho contínuo, de preferência com equipe interdisciplinar e adequado à fase de desenvolvimento do aluno. Esse trabalho deve ser construído com inclusão de profissionais de saúde, funcionários da escola, pais e cuidadores informais do aluno com diabetes, assim como os pais de alunos sem diabetes, a fim de promover melhorias na adesão ao tratamento e nas relações sociais dentro e fora da escola, o que reflete positivamente no desempenho escolar do estudante que possui diabetes. Pensando nisso, existem instrumentos educacionais para aconselhamento que foram adaptados e validados para utilização em adolescentes com diabetes, e alguns estão disponíveis e são recomendados pela American Diabetes Association. Além disso, os profissionais envolvidos na assistência de alunos com diabetes podem buscar esse tipo de ferramenta e diretrizes com apoio de especialistas, grupos ou instituições internacionais e nacionais que trabalham na busca por evidências sobre os impactos do diabetes na rotina do aluno, dentro e fora do ambiente escolar, e assim combater e prevenir o bullying.

As instituições ADJ Diabetes Brasil e a International Diabetes Federation pesquisaram e desenvolveram materiais educativos para auxiliar as escolas com informações sobre o diabetes mellitus. O material gratuito foi elaborado em dez idiomas para utilização mundial e a versão em português foi denominada ‘Pacote Educativo para Informar sobre Diabetes nas Escolas’ ou ‘Projeto KiDS’ (do inglês, Diabetes in Schools Project). O Projeto KiDS é a primeira ferramenta internacional direcionada a promover um ambiente seguro e de apoio à melhor compreensão do diabetes nas escolas. Desmistificar o diabetes, dando o apoio necessário para que o bullying não ocorra com os estudantes é um dos objetivos do Projeto. No Brasil o Projeto KiDS foi aprovado pelo Ministério da Saúde, Sociedade Brasileira de Diabetes e Sociedade Brasileira de Pediatria.

Outra iniciativa brasileira bem sucedida que também combate o bullying é o Projeto Diabetes nas Escolas. A Sociedade Brasileira de Diabetes, por meio do Centro de Referência Diabetes nas Escolas (CRDE) da Santa Casa de Belo Horizonte, certifica as escolas brasileiras capacitadas em diabetes, com o Selo Escola Amiga da Criança com Diabetes. O objetivo desta iniciativa é capacitar a equipe de professores e funcionários das escolas parceiras em treinamentos ofertados pelo CRDE na própria escola. O projeto utiliza o material do Projeto KiDS e dispõe de uma plataforma para treinamento online gratuito. Diversas instituições já são parceiras do projeto e em 2018 uma expansão do CRDE foi implantada na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), a qual também conta com equipe interdisciplinar qualificada e oferece treinamentos presenciais em escolas do norte de Minas Gerais desde março de 2018, por meio da UFVJM, em Diamantina.

Mesmo com projetos promissores em andamento, a literatura carece de grandes estudos sobre o bullying e o diabetes nas escolas, mas essa relação é alvo de pesquisas pioneiras como aquelas realizadas por membros da International Diabetes Federation e da ADJ Diabetes Brasil. Evidências são encontradas em pesquisas como uma recente revisão sistemática da literatura que investigou a relação do bullying com o diabetes tipo 1 (DM1) em crianças e adolescentes de diversos países. Os autores verificaram que 85,7% dos estudos incluídos na revisão demonstraram a ocorrência de bullying em pessoas com DM1 nesta faixa etária, pois houve maior número de vítimas em comparação com crianças e adolescentes sem diabetes. Além disso, as agressões físicas e/ou verbais foram as principais ameaças registradas nos estudos. De acordo com os autores, possíveis explicações para a ocorrência de bullying em pessoas que possuem DM1 estão relacionadas com ações de autocuidado com o diabetes, atividades estas que são realizadas várias vezes na rotina diária desses jovens, o que é incomum aos demais alunos e poderia fazê-los parecer diferentes de seus pares, levando à vitimização do bullying.

Outra revisão sistemática identificou um crescente número de intervenções em diabetes nas escolas desde o ano de 2005, em resposta à crescente prevalência de diabetes tipo 1 e tipo 2 em crianças e à maior atenção global dada à carga imposta pelo diabetes. Intervenções com treinamento e educação continuada em diabetes para enfermeiras, professores e alunos com abordagens focadas na criança com diabetes têm sido desenvolvidas desde 2005. A revisão destacou ainda, a importância de avaliações abrangentes dos projetos que abordam o diabetes nas escolas. Segundo os autores, isso poderá contribuir com melhorias nos resultados das intervenções destinadas à comunidade escolar. Também servirá como poderosa ferramenta de advocacy para fortalecer as políticas escolares sobre diabetes.

Em conclusão, o bullying é comum nas escolas e afeta, de forma negativa, os alunos que possuem diabetes. Percebemos que esforços crescentes estão sendo feitos no exterior e no Brasil para compreensão das dificuldades vivenciadas pela aluno com diabetes e por sua família. Por isso, iniciativas com base em evidências devem ser incentivadas para sustentar o desenvolvimento ou o aprimoramento de intervenções contra o bullying vivenciado por crianças e adolescentes com diabetes na fase escolar. Pesquisas com novos desenhos experimentais, estudos longitudinais, maior número de escolas e de alunos com diabetes são questões críticas que poderão fornecer novos resultados que enriquecerão as atuais estratégias de abordagem do tema e devem ser levadas em consideração antes do início de novas ações nas escolas. Apesar de tudo, o Brasil oferece inúmeras oportunidades, apresentadas ou não neste artigo, que estão transformando a realidade de alunos com diabetes e fornecendo maior segurança para eles, assim como para a família, a escola e os profissionais que assistem esse público.


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05 Novembro 2018

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