A mãe do Jean Marcel

Dr. Walter Minicucci

  • Especialista em endocrinologia e metabolismo pela SBEM
  • Mestre em Clínica Médica pela UNICAMP
  • Médico assistente das disciplinas de Endocrinologia e Metabologia da UNICAMP
  • Presidente da SBD

O Jean Marcel era um menino miúdo, hiperativo, que mexia em tudo, interrompia a consulta várias vezes, não queria ser examinado e, para deixar que lhe picassem o dedo para medir a glicemia, ou que lhe aplicassem insulina, fazia um grande drama e levava os pais para uma longa negociação.

Lembro-me bem que, naquela ocasião, o pai estava a frente da consulta e a mãe ficava lá atrás, insegura e assustada.

O começo do tratamento, como geralmente ocorre nestes casos, foi muito difícil. Muitas vezes tive que pedir a família que colocasse limites para o menino e que todos eles deveriam aprender que, tudo aquilo pelo qual ele estava passando, as aplicações de insulina e as medidas de glicemia, várias vezes ao dia, eram extremamente necessárias para ele, não só no momento, mas também no futuro.

Aos poucos, eles foram se adaptando, a mãe participando cada vez mais do tratamento, trazendo suas anotações do que tinha acontecido, no tempo entre uma consulta e outra, sempre apoiada pelo marido e sua filha. Cresceram todos, como pessoas e nos cuidados com o diabetes.

Sua mãe, dona Carmem, viaja todos os  dias para medir a sua glicemia e aplicar insulina, no horário do recreio até uma cidade próxima, onde o Jean estuda.  O pai ajuda muito porém, devido a maior carga de trabalho, fora de casa, a maior parte dos cuidados do Jean fica por conta de sua mãe  durante o dia.

Escrevendo este texto, não consigo deixar de lembrar das incontáveis mães que, independentemente de suas condições socioeconômicas, agem da mesma forma: com dedicação extrema, passando noites em claro, ligando para seus filhos para saber do seu estado de saúde, brigando pelos seus direitos, para que tenham uma insulina ou um atendimento melhor, que fundam associações, que escrevem ou participam de blogs de outras mães, todas tentando melhorar a vida de seus filhos.

Muitas dessas mães ou mesmo pais que funcionam como pai e mãe, seja porque o cônjuge foi embora ou faleceu. Outras vezes, são os avós que têm que substituir suas filhas ou noras, todos lutam e torcem para que seu tempo seja suficiente para apoiar e ajudar os filhos que deles necessitam.

Vi o Jean há poucos dias, ele está maior, me abraçou e me mostrou uma foto sua fazendo “surf” na praia. Sua hemoglobina glicosilada de 7,1% mostra que, apesar das dificuldades enfrentadas, está em ótimo controle do diabetes. Toma insulina 4 vezes ao dia, as vezes até mais do que 6, e mede a glicemia na ponta dos dedos sempre mais do que 4 vezes ao dia. Os pais ainda aplicam a insulina e ele não reclama mais, vive bem e feliz.

Quando me perguntam qual é a peça fundamental no tratamento das pessoas com diabetes do tipo 1, não preciso pensar na resposta. A despeito de todos os avanços no tratamento do diabetes, e são muitos, o FUNDAMENTAL, não importa de que tipo de família estamos falando, o que define o sucesso do tratamento e o futuro destas crianças é a presença de uma mãe dedicada ou um pai, avó ou outra figura, que esteja tentando fazer o papel dessa mãe.

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