Suplementos alimentares: Interações medicamentosas e eventos adversos. Quais os riscos?

Dra. Caroline Mesquita

  • Farmacêutica
  • Doutora em Farmacologia - Faculdade de Ciências Médicas - UNICAMP
  • Especialista em Fisiologia Endócrina e Fisiopatologia do Diabetes
  • Colunista da Sociedade Brasileira de Diabetes
  • Membro Ativo da Endocrine Society

Pesquisadores da Escola Chinesa de Medicina, em Taiwan, evidenciaram que o uso de ervas e suplementos alimentares (HDS), isoladamente ou concomitantemente com medicamentos podem potencialmente aumentar o risco de eventos adversos e de interações vividos pelos pacientes (1).
O pesquisador Hsiang-Wen e seus colaboradores fizeram uma revisão e encontraram os principais suplementos envolvidos com o risco de interação, como magnésio, cálcio e ferro, além das plantas medicinais Ginkgo Biloba e Erva de São João (Hipérico). Além disso, a varfarina, insulina, a aspirina, a digoxina, e ticlopidina tiveram o maior índice de relatos sobre interação associadas com os HDS (1).
O consumo de ervas e suplementos alimentares (HDS) aumentou significativamente nos EUA ao longo das últimas duas décadas. Estima-se que mais de 50% dos pacientes com doenças crônicas ou neoplasias usam HDS, e quase um quinto dos pacientes fazem uso de ervas e ou suplementos concomitantemente aos medicamentos de prescrição (1).
Apesar de seu uso difundido, os riscos potenciais associados com os HDS em combinação com outros medicamentos são desconhecidos pelos consumidores. Embora muitos usuários acreditem que a HDS são seguros, foram relatados efeitos adversos leves a graves tais como: problemas cardíacos, dor no peito, dor abdominal e dor de cabeça, quando associados (1).
Um dos grandes desafios para os profissionais de saúde e que, muitas vezes, os pacientes não revelam que usam ervas e suplementos alimentares (HDS), isoladamente ou concomitantemente, por exemplo, um estudo estimou que apenas 30% dos pacientes revelam esta utilização, sendo que a comunicação profissional da saúde – paciente é essencial para analisar os riscos e benefícios dos HDS (1).
Na revisão de Hsiang-Wen et al, foram documentadas as interações entre HDS e drogas em cada categoria, 166 ervas e produtos botânicos, 28 VMA (vitamina, mineral e aminoácido) e 19 DS (outros suplementos dietéticos), representadas na figura 1.

 

Trulli

Fig 1: Avaliação das interações medicamentosas documentadas e contraindicações associadas com ervas e suplementos dietéticos: uma revisão sistemática da literatura (1).

Estudos realizados nos EUA indicam que as reações adversas às drogas (ADRs) são uma das principais causas de morte. Sendo a causa até 4,6% das mortes em pacientes hospitalizados. Na Inglaterra, as ADRs são responsáveis ​​por cerca de 6,5% de todas as admissões hospitalares e pelo menos 5.000 mortes por ano (2).

Já no Brasil, os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que o percentual de internações hospitalares provocadas por reações adversas a medicamentos ultrapassam a casa dos 10% e, ainda segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINTOX), em 2003, os medicamentos foram responsáveis por 28% de todas as notificações de intoxicação. 

Algumas reações adversas a medicamentos são previsíveis, com base nas propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas de uma determinada droga. Diferenças fisiológicas e ambientais, incluindo idade, sexo, saúde geral, terapia medicamentosa concomitante, estado nutricional, tabagismo e consumo de álcool, são fatores bem reconhecidos que levam às ADRs (2).

Além disso, a variação genética entre os indivíduos e susceptibilidade fisiológica consequente à toxicidade de drogas também está sendo vista como um grande contribuinte para reações a drogas idiossincráticas, representando uma estimativa de 20-95% da variabilidade na disposição e efeitos de drogas (2).

Para tanto, as interações medicamentosas podem afetar drasticamente a farmacocinética ou farmacodinâmica de uma droga que pode resultar em uma reação adversa significativa. Umas séries de fatores influenciam o metabolismo da droga, incluindo o índice terapêutico, por exemplo, se o fármaco possui um índice terapêutico elevado, então é improvável que causaria toxicidade pela variação genética. Entretanto, se a droga possuir um índice terapêutico baixo (por exemplo, varfarina), variações genéticas menores nas concentrações, podem provocar toxicidade grave ou até mesmo fatal (2).

Com base nos dados, concluímos que a resposta a um fármaco é, até certo ponto, determinada por fatores genéticos. O grau dessa influência genética, combinada com fatores ambientais, de saúde, e estilo de vida resulta na resposta à droga e interações. Esta avaliação fornece evidências cientificas para prevenir eventos adversos e melhorar os resultados terapêuticos do paciente.

Referências Bibliográficas

1. Tsai, H‐H., et al. "Evaluation of documented drug interactions and contraindications associated with herbs and dietary supplements: a systematic literature review." International journal of clinical practice 66.11 (2012): 1056-1078.

2.Pilgrim, J. L., Dimitri Gerostamoulos, and Olaf H. Drummer. "Review: Pharmacogenetic aspects of the effect of cytochrome P450 polymorphisms on serotonergic drug metabolism, response, interactions, and adverse effects." Forensic science, medicine, and pathology 7.2 (2011): 162-184.

3. Organização Mundial da Saúde (OMS).

4. Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINTOX).

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