Empoderar, palavra da moda ou estratégia para resultados sustentáveis?

Dr. Mark Barone

  • Doutor em Fisiologia Humana (ICB/USP)
  • Especialista em Educação em Diabetes (ADJ-IDF-SBD, UNIP e IDC)
  • Autor dos livros “Tenho diabetes tipo 1, e agora?” e “Diabetes: conheça mais e viva melhor”
  • Autor do blog www.tenhodiabetestipo1eagora.blogspot.com

Muito do que no passado era conhecido como informar ou educar passou a ser referido como empoderar. Teria sido essa uma das substituições da moda, uma atualização linguística, ou o reconhecimento de que para resultados sustentáveis há algo além da transmissão de informação ou de um processo passivo de ensino-aprendizagem? Minha opção será por defender a última alternativa não apenas com argumentos, mas especialmente com exemplos que temos acompanhado de perto nos últimos 11 anos, através do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes na ADJ Diabetes Brasil e em outras entidades. Para começar, esclareço que o objetivo deste artigo não é subestimar a relevância da informação e da educação em saúde, ambas componentes fundamentais, mas não necessariamente suficientes de forma isolada para o empoderamento. E aproveitando o tema, vale a reflexão de que informação de qualidade e educação bem estruturada de diabetes no Brasil ainda são raras e pontuais.

Voltando então ao empoderamento, fala-se muito em protagonismo da pessoa com diabetes, e é a partir daí que começaremos, visto que só pode ser verdadeiramente protagonista quem está empoderado, quem tem ferramentas suficientes para colocar em prática suas decisões conscientes, e entende as consequências dessas decisões. Apesar de parecer óbvio, é importante refletir sobre se e como as estratégias educativas e informações transmitidas favorecem esse ganho de autonomia consciente, para que a pessoa com diabetes, além de prosseguir com os autocuidados após sessões educativas ou contato com a informação, tenha condições de justificar para si mesma e para outras pessoas suas atitudes e possa tomar decisões adequadas que extrapolem aquelas para as quais ela foi diretamente “treinada”.

1-Foto da ADJ Diabetes Brasil


No caso do Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes, a ideia é que além das sessões educativas, os jovens façam estágios críticos observacionais e de mãos-na-massa, e sejam expostos a diferentes situações nas quais se enxerguem e, para as quais, precisem agir ou tomar decisões (atualmente também adultos podem se formar no Workshop de Liderança em Diabetes). É verdade que, nessas capacitações, não é necessário que os participantes tenham necessariamente diabetes e, o objetivo maior é ajudar outras pessoas, melhorar suas comunidades e impactar positivamente a sociedade. Por esses motivos, os treinamentos são compostos também de oficinas de advocacy, storytelling, resiliência, empatia, entre outras.

Antes de encerrar, dois outros aspectos que contribuem para os bons resultados de programas que levam ao empoderamento dos indivíduos, autonomia e liderança são: a) a convivência, compartilhamento de experiências e apoio mútuo entre pares (recomendo que os programas com ótimos resultados do Peers for Progress sejam conhecidos: http://peersforprogress.org/), e b) a criação de oportunidades de engajamento, engajamento social e tomada de decisão das pessoas com diabetes. Costumo me referir como uma perda de tempo não seguirmos o ditado inglês “no decision about me, without me”, que deixa claro que o tomador de decisão final é a pessoa que vive com diabetes ou outra condição crônica (tomar o medicamento ou não, se engajar no programa de saúde ou não, etc). Portanto, é fundamental o engajamento para decisões compartilhadas. Ou melhor, o protagonista não deve receber o texto pronto para decorar e atuar, como protagonista de um filme ou peça de teatro, mas deve ter um papel muito mais de escritor e diretor da própria história e encontrar em sua equipe de saúde e programas educativos o suporte para esse engajamento verdadeiro desde o início.

Espero que o presente artigo sirva para reflexão e me comprometo em uma próxima oportunidade a explicação do porquê não haver as palavras “paciente”, “diabético”, “portador”, “doença” em meu texto. Finalizo recomendando visita aos trabalhos sobre o Treinamento de Jovens Líderes em Diabetes, com especial atenção ao modelo da Escada de Empoderamento, desenvolvido a partir do acompanhamento de resultados do programa da ADJ e de outros com os quais tenho trabalhado (https://www.morressier.com/profile/mark-barone/59d22e19d462b80296ca2c5f).

Outros links recomendados

Atualização de linguagem sobre diabetes (ADCES): https://www.diabeteseducator.org/practice/practice-tools/app-resources/diabetes-language-paper

Peer Leader Training Manual (IDF): https://www.idf.org/e-library/education/65-idf-peer-leader-training-manual.html

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